Anjo Misantropo - Um livro de Matheus De Giovanni

 

Anjo Misantropo, o livro

capa do livro Anjo Misantropo

Edição Impressa Esgotada

Infelizmente o livro encontra-se esgotado, agradeço a todos pela grande procura que resultou no esgotamento de todos os exemplares produzidos. Muito obrigado mesmo!

No momento estou planejando uma segunda edição, mas para que isso se concretize estou a procura de uma nova gráfica que demonstre interesse em me ajudar neste projeto pessoal, e principalmente que acredite no livro.

Caso você possa ajudar, ou conheça alguém que possa, por favor entre em contato.

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Textos

Você encontra ao lado direito uma prévia, são alguns textos presentes no livro. Embora o título engane, o texto “Nota Final” não é o último do livro, mas representa uma grande etapa. O real significado apenas lendo toda a história para sentir.

“Anjo Misantropo” é um livro de crônicas, sobre assuntos independentes e variados. Porém, existe uma tênue linha interligando cada texto em um contexto maior, formando uma evolução do personagem em uma única história.

Prestando atenção nas palavras e na aprendizagem contida neste livro, talvez seja possível encontrar algumas respostas aos questionamentos comuns - talvez não tão comuns. Ou melhor: um meio de encontrar SUAS próprias respostas. Afinal, todos temos nosso lado “Anjo” e nosso lado “Misantropo”.

Introdução

Tudo possui um inverso:
expressões, razão e emoção;
sentimentos, amor e ódio;
conceitos, real e ilusão,
Desunidos, habitualmente, em entidades distintas.

Entretanto, existem anomalias que, indefinidamente,
convivem extremo e outro dentro de um mesmo ser.
Quando ocorre, há uma perfeita harmonia entre si,
revelando, assim, custoso símbolo. Excepcional.
Insólito, de brilho ocultado pela maioria.

De palavras simples e pensamentos dessemelhantes,
"Anjo Misantropo" é um conjunto de reflexões,
apresentado em escritos de temas variados.
Gritos incessantes contra o banal majoritário.
Até mesmo um anjo pode odiar a humanidade.

Afinal, existem limites para o incomum?

Feitio de existir

No início, o amor surge límpido e sem intenções. A primeira flor em campo virgem. Encontrado pela primeira vez, um ser maravilha-se pela sedução que invade e percorre seu corpo. Uma série de experiências começa; a primeira marcante na vida de alguém. Nasce uma nova criança, com um ramo de escolhas, situações e um arrepio que tende a enfraquecer a pessoa, bambear as emoções, hesitar os movimentos. Não tente, não há que ser forte.

Teorias e pensamentos se mesclam em bobas tentativas imaginárias de abordagem, quase nunca praticadas. Desafios que aparentam não ter soluções efetivas. O mundo muda de foco, e para aqueles que não estão em seu campo de visão, isso se torna tedioso e infantil. O novo olhar toma conta e a rotina simples se complica, tornando-se retalhos mal cortados.

O medo da derrota começa a assombrar a esperança. A criança procura por regras para poder se guiar, mas não as encontra. Sendo assim, guia-se e age de acordo com o que é, sem truques. Ainda encantada, seu receio natural a faz distanciar-se daquela flor, imaginando ser impossível ter em mãos tamanha beleza. Desacredita em seu poder e desespera-se.

A inveja do pedaço de mundo que nunca sentiu este turbilhão se aproveita do desespero. Pequenas ações plantam ervas daninhas invisíveis pelo campo, construindo uma parede de dúvidas em frente ao ser. Desnorteada, a criança cai na armadilha. As atitudes que a seguem são apenas fracassos. Decepção com o que, até então, encantara tanto.

Um aperto forte tira toda a cor que existe em sua volta, deixando apenas uma chuva cinzenta. Quer rir, mas só o que consegue é chorar. Uma solidão cobre seus dias. Procura por atenção, mas para isso se isola, esconde-se.

Deseja tanto que as coisas mudem que parece não sobrar mais forças para que aja. Suas certezas se abalam. Tenta encontrar os culpados, mas eles estão camuflados. Não percebe a tênue cortina de trapaças. Quanto mais ela procura a culpa nos outros, mais se encontra. Sendo assim, veste-se de todo esse pecado. Sente-se responsável por tudo, inclusive da mágoa que sente. Não tente, não há que ser feliz.

Foi treinada a “ser você mesmo”, e quando aprendeu a lição encontrou a intolerância do mundo que a ensinou. Afinal, isso não era para ser bom? É incompreensível para ela. Parece estar a um passo de sair da realidade e ao mesmo tempo ter tanta consciência disso. Em uma tentativa de não mais se machucar, fecha-se em seu mundo.

Porém, justo quando está tudo construído, percebe que os espinhos que fazem a barreira de seu recanto estão virados exatamente para seu lado!

Desesperadamente, tenta encontrar algo que a sustente. Sem dar-se conta, sua base mudara de lugar. Ao tentar pisar no chão, cai.

A primeira queda é fundamental.

Agora, mesmo com sua arrogância e ingenuidade juvenil, esta criança deve se levantar sozinha, crescer enquanto enfrenta seus medos, aprender com suas próprias experiências. Até o final deste caminho, deve passar por quantas dificuldades e testes forem necessários para entender que possui e é tudo o que precisa.

Compreender que há que ser tranqüilo, apenas isso.

Conselhos para o Inverno

Não se importe por serem tão diferentes! Um relacionamento não é um fechamento de uma sociedade, onde ambas as partes são iguais e se juntam para o mesmo fim. Não é tão sério assim! Dessa maneira, mesmo havendo o aprendizado, perde-se outro principal fator: a diversão.

Superficialmente falando, um bom relacionamento é aquele cujo ambos pensem, tenham idéias e valores parecidos, mas maneiras completamente diferentes. Sendo assim, o casal terá situações únicas que só serão possíveis com aquela pessoa, e adicionará muito para ambas as partes, fazendo com que cada um seja extremamente singular ao outro.

Basicamente, o relacionamento é como um leque, sendo cada pessoa uma das varetas do mesmo. Se não possuírem um vértice em comum, onde se juntam, será impossível construir.

Se possuírem um vértice, mas as varetas estiverem muito próximas, o leque ficará sempre fechado: questão de tempo para perceber que não tem uso. Porém, havendo vértice e uma distância entre as varetas, o leque se tornará útil e agradável, proporcional à distância.

O vértice são os pensamentos, idéias, valores e até mesmo os sentimentos conjuntos. A distância entre elas é a diferença, a maneira de agir, o jeito de cada uma das pessoas envolvidas. O material cujo é feito, ligando vareta à outra, depende exclusivamente do casal, sendo as experiências e a força existente entre ambos; impossível definir.

Assim seria uma suposta teoria de ordem natural, extremamente resumida em palavras e idéias simples. Obviamente, não é exatamente como acontece e em grande parte das vezes, existe uma diferença que causa muito impacto.

Quando existem possibilidades de mudança, apenas um do casal aproveita. Quando existe algo que se mostra diferente do imaginado, fugindo às suas regras, seu mundo, ele tenta descobrir o porquê. Coloca-os em dúvida, dá uma chance. Pelo contrário, a vareta restante prefere ficar consigo mesma, imutável, não deixando nada de novo entrar e nem ao menos contestando.

O mundo continua, dá suas voltas, e não vale a pena parar por nada. Cada chance, cada mudança deve ser aproveitada ao máximo, tirar delas tudo que possa ser aprendido. Deixar o tempo agir. O que parece impossível agora pode não ser em algum tempo.

Não se deve ser a favor da busca de uma pessoa perfeita, porque, mesmo se existir, seria impossivelmente raro encontrar. Se não prestar atenção, você pode ter a chance de encontrá-la e deixá-la passar.

Os candidatos a serem esta pessoa são aqueles que aparentam ser tudo o que precisamos, queremos, nem que seja por um curto momento. Arriscaria perder essa chance, passando pelas suas mãos? Não vale a pena tomar este risco, deve-se aproveitá-la.

Não se deve decidir permanentemente em situações como esta. Quando se tem a chance de encontrar a outra vareta para um leque quase perfeito, e se é apressado na decisão, este leque se torna defeituoso.

Deixe acontecer.

Conselhos para o Inverno

Epifania

Horizontes escurecem. O tempo para. Uma neblina envolve o ambiente, enquanto uma imagem imponente se forma. Um ser superior. E, mesmo assim, sinto-me sozinho neste lugar. Uma terrível sensação de solidão.

— Você... Não pode estar aqui!

Uma voz fria preenche meus pensamentos.

— E porque não poderia, meu pequeno? Chega de ingenuidade, não é para isso que está aqui. É hora de ver a verdade. Esqueça o amor e todas essas mentiras.

— Não acredito no que você diz, você não existe...

— Ah, então este é seu mundo? Apenas porque você não acredita, eu não existo? Vamos, acorde!

Sentimento de derrota e falta de auxilio.

— Não está em meus entendimentos...

— As pessoas em volta, cada vida perdida, é você quem as tira? Cada nascimento, você é aquele quem dá vida? O que o faz pensar isso? Este não é seu mundo, deixe de bobagens! Você entende nada. Está perdido.

— Claro que é meu mundo! É a maneira como eu o vejo! Não pode ser diferente!

— Veja da maneira que quiser, não mudará nada o que é. Conforme-se, minha criança.

— Não acredito!

— O mundo gira em sua volta? Você quer, então é. Você não quer, então nunca foi. Que maldito ser egoísta é você, meu pequeno? Eu existo. Sou seu deus. Seu superior. Sua salvação. Sua ciência. Existo, da maneira que sou, e não a sua maneira.

“Posso levá-lo aos paraísos ou arrastá-lo centímetro por centímetro até o mais profundo inferno. Dar-lhe o nirvana ou arrancar de suas mãos as suas virgens. Deteriorar sua carne com vermes ou deixá-lo no absoluto vazio. Provar-lhe através de equações matemáticas a minha existência. Posso ser uma função impossível em sua física moderna.”

“Sou a resolução da probabilidade que define todo o seu futuro. Posso ser o que eu quiser, inclusive nada, mas eu. Não você! Você não controla nada. É uma misera parte ínfima de algum devaneio e piedade minha.”

“Considere isso crueldade ou misericórdia, encare como quiser! Não mudará nada. Você não pode mudar nada. O que acha ser sua vida, na verdade são minhas cordas, pequena marionete. Você não pode cortá-las.”

Falta de esperança.

— Precisei de um guia! Se eu duvidei, não tenho culpa! Esse é o motivo da inteligência: duvidar de tudo!

— Eu lhe prometi algo? E porque se importa tanto? Até então não acreditava em mim, não é o que insiste em dizer?

Cólera subindo em meu interior.

— Não interessa! Não me importo com nada mais! Você é uma mentira, sempre foi! Isso eu sempre tive certeza! Não existe deus algum, eu controlo minha...

— ...VIDA? Então pode me impedir de fazer ISSO?

Um aperto no coração. Sua expressão ficou severa.

— Pode controlar seu corpo, ó poderoso ser? Pode impedir-me de parar seu coração?

Dor. Cada palavra sua era como um soco no rosto.

— Pode me fazer sentir pena de você? Ó, poderoso deus de sua vida, saia de seu corpo mortal! Não é nisso que acredita? Ou acha que pode ser tão poderoso nesta ínfima carne? Com dores, doenças e necessidades?

“Que misero deus é este que não sobrevive mínimos cem anos sem seqüelas? Este que diz ser seu mundo possui cinco, dois mil anos, mas e você? O que estava fazendo no resto do tempo, além desta sua vida? Cuidando do seu mundo? Então é responsável por tudo que existe? Pela fome e pela soberba? Pelo amor e pelo ódio? E enquanto estava nesta carne? Quem cuidava de seus aposentos? Tudo isso é sua culpa, sim!

“Se sua vida é como é, foi você quem a fez assim. Tudo é sua culpa! Porém, você é minha criação. Não importa o que faça com sua vida, nada seria se eu não tivesse o seu controle. Quando eu quiser, posso tirar você desta sua carne atual! E chegou este momento! De uma vez por todas, deve acordar! Chega de inocência! Abra seus olhos! Desista do amor, deste mundo!”

Giro em uma infinidade de cores.

— NÃO PODE SER ASSIM!

— Não pode, mas é. Qual a diferença?

— NÃO QUERO!

— Se ainda acha que tem vontade própria, pequeno mentiroso, então prove! Você é minha diversão. Sou seu motivador. Sua alma. Sou eterno.

— NINGUÉM PODE ME CONTROLAR!

— Então não há ninguém para fazer-lhe isto!

Sinto meu coração... Apertando... Cada vez... Mais...

...

Tento acertar a imagem com meus punhos.

Sangue escorre pelos cortes da minha mão. Cacos do espelho, agora quebrado, estilhaçam pelo chão. Ainda assim, posso ver aquele sorriso macabro em cada pedaço.

— Então, é neste lugar onde sempre se escondeu...

O coração pulsa dolorosamente a cada gargalhada.

E, mesmo se quisesse, não conseguiria parar de rir.

Epifania

Praticando

O que fazer quando não se sabe o que fazer? Quando não se tem vontade de querer saber o que fazer. Não se tem muita vontade, alem da própria de querer ter o que fazer. Mas, eu não sei.

Então, agora, vou fazer um pouco de não-fazer, em qualquer outro lugar. E, provavelmente, vão fazer comentários sobre isso.

Mesmo eu não fazendo.

Nada.

Centelha Primordial

Não sou alguém que deveria ser entendido. Não deveria ser analisado, pesquisado. Sou alguém, não um objeto. Apenas alguém, e ninguém mais. Embora, talvez fosse mais valorizado sendo ninguém.

Quando os holofotes não iluminam os rostos e se age pelas penumbras, sem que ninguém veja, parece que as atitudes valem mais. Hoje, um rosto encapuzado é mais simpático que um limpo. Mostrar-se é sinônimo de doar-se a tapas, e de tapas estou satisfeito. Embora a maioria tenha sido merecedor. Ou talvez não. Martírio? Discordo. Apenas reconhecimento dos próprios erros.

Egocentrismo, arrogância, sinceridade. Ser sincero é um pecado nos dias de hoje. Além de ser falsamente valorizado, é uma carta de entrega aos inimigos. Assim sendo, creio que pequei. E muito. Meu coração, uma eterna chama flamejante, foi preso dentro de uma jaula com barras de gelo. Dentro, ele oscila entre diferentes temperaturas. Ora quente, ora fria.

Como poderia ter aprendido a me preocupar com os outros de uma maneira correta se ninguém realmente demonstrou preocupação comigo? Mas, com alguém eu teria que me preocupar. Pelo menos em uma pessoa eu deveria confiar. Então, escolhi o mais próximo. Aquele que se mostrou mais confiável, maior conhecedor de mim mesmo, maior fidelidade, embora ela me traia algumas vezes – mas com nobres e tolos motivos.

Aquele que demonstrou que, no fim das contas, não é um objeto. Mais é um ser humano - e por isso erra tanto. Alguém que, na verdade, preferia ser ninguém visível. Apenas ninguém, e ninguém mais. Mas não pode - e por isso se lamenta. Então, o que lhe resta é continuar, firme e forte. E por tal determinação eu o escolhi. Em alguns momentos, exagero na força de minha escolha, pois escolhi a mim mesmo!

Não haveria ninguém melhor. Mesmo nos piores momentos, não me deixarei cair. Serei forte até os últimos segundos. Percebi que meus erros não eram irreversíveis. Que todas as respostas estão e sempre estarão em minha frente, apenas preciso aprender a enxergá-las. Também percebi que os erros tinham os mesmos nobres e tolos motivos - embora poucos os entendessem. E, às vezes, nem mesmo eu entendesse. Como se vivesse em meu próprio mundo e tempo.

Em certos momentos, nem eu mesmo me entendo – mas não paro para tentar entender. Ser complicado não é um erro - é uma chave. Uma chance de adquirir conhecimento através de desafios e dificuldades. Conhecimento que outras pessoas não conseguiriam pelo simples fato de serem simples. Chances que decidi aproveitar ao máximo, independente da situação.

E ao aceitá-la, percebi que tenho asas. E com elas outro desafio, uma nova jornada, uma oportunidade de me libertar. De ser recompensado por tudo que fiz, sou, farei e serei. Recompensado por todos os desafios que enfrentei e pela garra e anseio por mais batalhas e tesouros. Talvez, a jornada mais longa de todos - e mais árdua.

Antes de abrir minhas asas e voar, tenho correntes a quebrar. Um ser que recebeu o dom de voar, mas um dom inibido. Um pássaro na gaiola, uma chama em uma jaula de gelo, um anjo caído na Terra. Parte desconhecida das regras do jogo da vida. Regras que jamais entenderei, mas minha função não é entender. Não é para isso que existe a vida. Ela existe para, nela, viver, aprender e crescer – não para entender.

Viverei, aprenderei e hei de crescer ainda mais. Não esquecerei o que foi entendido, não hesitarei para entender. E, embora os tempos pareçam escuros, sei que um dia a luz irá voltar e brilhará em meu rosto como nunca!

A Lua pode aquecer e o Sol se esfriar durante as noites, mas as árvores continuarão a morrer de pé. Assim, como um velho e experiente carvalho que enfrentara anos de luta, também morrerei, com as asas abertas e pés livres de correntes.

Centelha Primordial

Nota Final

Todos possuem uma pequena xícara. Cada presença, mudança ou aprendizado é uma gota que ajuda a enchê-la. Quando se atinge a borda, param-se as gotas ou esvazia-se a xícara.

A evolução é moeda viciada; nunca se desenvolve em terreno construído. Ou sim, mas, de estruturas antigas e abaladas, os sobrados são extremamente instáveis. Meus terrenos se acabaram. Não tive coragem de destruir o que já se foi. Em casas antigas e abandonadas do meu passado, alojaram-se vermes e parasitas.

Porém, minhas gotas não se cessaram. Seu líquido começou a transbordar, derramando e me deixando incomodado. Não era lógico destruir o que havia feito. Foram tão belas construções... Deveriam ser eternas! A idéia do belo perpétuo, junto com o orgulho de meus frutos, era intocável para mim. Qual criador não se orgulha ao ver sua obra desenvolvida?

Todavia, apaixonar-se por uma idéia é um bloqueio. Impediu-me de abrir os olhos para outras. Quando comecei a raciocinar e a perceber que o ilógico poderia ser vital, meus pés já estavam encharcados. O desespero de senti-los assim foi espantoso. Subitamente, segurei minha xícara, firme, com uma angústia da necessidade de renovar que chegara ao seu limite. Joguei todo seu conteúdo em rostos.

Primeiro erro decisivo em minha vida. Não, não foi erro. Mudança seria a palavra correta. A ação foi como se me tirassem da embalagem e jogassem em meio de crianças trapalhonas. A reação foi a revolta daqueles, de caras molhadas.

Destruí, em pouco tempo, boa parte de meus cortiços, deixando apenas terrenos limpos por um tufão repentino. Fiquei confuso de primeira vista. Neste momento, toda teoria se juntou em ponto minúsculo, chacoalhou meu cérebro e disse: e agora? Foi então que houve um estalo diante de meus olhos. O ponto se expandiu, ultrapassando o limite das palavras, clareando cantos escuros, ociosos e ocultos de mim mesmo e revelando a importância ou não relevância dos já descobertos. Analisando este mais novo refluxo, cheguei a uma conclusão: joguei-me do abismo pela última vez. Pelo menos, assim que será visto a qualquer outro.

Ao decorrer de meu tempo, muitas idéias e pensamentos passaram por mim. Sonhos, principalmente sonhos! Minhas teorias foram tão perfeitas para mim, lógicas.

Vivia em meu mundo, despreocupadamente do meu jeito: tentando arranjar respostas para tudo. Tentando ser parte das respostas de tudo. Sentia-me isolado e diferente de meu tempo. Não me sentia à vontade dentro de minha própria casa. O famoso e típico ser que o mundo não aceita. Os que foram descobertos e obtiveram sucesso, foram os viajantes espertos: aqueles que conseguiram desviar-se das armadilhas.

A sociedade não aceita anomalias, pois se sente ameaçada. A reação negativa ao diferente de seus conceitos já definidos. Ataca-nos das piores maneiras, sem pensar. Reação instintiva, às vezes não se pode culpá-la por isso. Mas a pior maneira é aquela, falsa e discreta. Creio ser o suficiente para me incluir neste grupo e, assim crendo, sou, e nada mais precisa ser questionado agora.

Como parte desta corja, aos olhos dos outros, tão freqüentemente atacada, sabia de seus truques e golpes, e defendia-me. Os esforços pareciam tão valentes que, quando minha primeira torre caiu, não entendi o que houve. Sem sentido, não era lógico! Se eu estava tão atento, como deixei que chegassem tão perto?

Então, fui iluminado em espanto pela realidade na qual não acreditava: chegaram porque era ilógico. Era irracional agirem assim, impensável e imprestável. É incoerente esta forma que o mundo gira e incrível como existe um sentido por trás da mesma. Não podia ter me baseado nas ilusões desse lugar. Acreditar em suas aparências é esquecer que existe uma realidade por trás que não segue a razão humana, aqui conhecida.

Todas as respostas, soluções e teorias mirabolantes que até então haviam saturado minha mente, repentinamente explodiram! Como uma viga de madeira que caiu em minha nuca e cuja ausência demoliu toda uma parede onde estavam meus quadros, recém terminados – anos de esforço e minhas últimas tintas. Cansei-me disso, tanto trabalho para nada! Levantei-me, limpei minhas vestes e, através dos destroços, caminhei para fora daquele calabouço. Descobri um novo mundo, e por lá fiquei. E por lá percebi do que realmente havia me cansado, e que existia muito mais além daquele vale.

Não sei se minhas palavras serão levadas a sério. Tampouco sei se as mesmas são de valia para qualquer um além de mim. Fui o único que soube de todo seu proveito. Fui quem sofreu para alcançá-las, e sem esse sofrimento elas soam apenas como palavras bonitas. Junto desta ultima ferida temporária, veio o ultimo conselho necessário.

Chegou o momento da primeira gota após a seca. Nela, sustentarei meus valores, idéias e ideais. Provavelmente, minha maneira não será cativante nem simpática aos outros, por algum tempo. Não me importo, nem mesmo um pouco, com isso.

Revolucionarei minha própria vida dentro deste recipiente que a contém. Tomarei algumas iniciativas que, finalmente, tirarão minha existência da rotina errada. Não me preocupo em parecer qualquer coisa.

Estarei sendo honesto, e não há como negar o notável poder de quem age com integridade, independente de parecer simpático ou não.

Não há mais razão para continuar a ser como antes. Acabou o tempo em que havia um resquício de liberdade para poder querer se mostrar da maneira que quiser. Com o tempo, a realidade infundada foi se revelando e acabou com a magia que ainda restava. Não mais espelhar um louco livre aos olhos do público. A lucidez veio e foi-se, deixando seu rastro de bom senso. O que resta é juntar em cesta tudo que puder colher. O tanto que aprendi, apenas eu saberei como usar. Não faz mais sentido outros saberem de minhas conquistas, por enquanto. Foram alcançadas para mim, e usarei da melhor forma, assim como todo o resto deveria fazer consigo mesmo. Sem mais mímica, nem sombra.

É fim dos meus dias de guia particular. É um trabalho que não quero mais, não vejo mais sentido. Devo me preocupar mais comigo nos próximos tempos. Reunir meus pensamentos, desenvolver-me e tentar alcançar a realidade que sei que existe, de alguma maneira e em algum lugar. Caso consiga ajudar ou guiar alguém a partir de hoje, provavelmente aconteceria devido ao próprio entendimento, do ser, a respeito de algo que sou.

Percepção de como levo meus dias, como vejo, e mais importante: que a junção disto levou-me à minha futura integridade. Inteireza que agora tenho uma leve, porém confiável, noção de como adquirir.

Irei tão longe neste lugar quanto conseguir! Mas, por hora, parecerei apenas um ser comum. Vocês não tomarão conta disso. Muito menos ouvirão qualquer muito mais de mim. É uma revolução silenciosa e pouco perceptível. Serei esquecido e, em momento secreto e indefinido, serei lembrado sublimemente, e esquecido novamente.

Conquistarei meu espaço nesse lugar, e terei uma vida digna de meu valor, alcançando meu auge quando partir. Até lá, serei um homem cujo poder é invisível aos alheios, enquanto continuo adquirindo conhecimento e experiência.

Coloquei uma esponja dentro de minha xícara. Comecei a perceber como funciona a parte irreal deste lugar e, principalmente, a criar curiosidade por este lado. E isso, pequenos, não pode ser transmitido. Minha consciência é a medida de meu egoísmo, e analisando minha situação, ela está completamente limpa e dançante.

Neste momento, deixo as ruínas para trás. Correndo secretamente por terrenos limpos e livres, conhecendo horizontes que agora imagino como alcançá-los.

Não me importa quanto tempo levei para chegar aqui, quanto terei para aproveitar ou quanto para ocorrer outro refluxo. O tempo continua não existindo. Não esquecerei o que compreendi, independente do que seja. Ainda menos irei parar novamente para entender. Tornar-me-ei meu próprio Deus em meu mundo singular.

Minha ínfima voz aparenta comum a partir de agora. Ecoa por entre as paredes de meu último abismo visível – mas não meu último abisso pessoal. Rebate nas muralhas, nos pedregulhos, reproduz versão diferente da original, chegando aos ouvidos de cada um de maneira diferente, de acordo de como a engrenagem da vida gira para cada. Ecoa por entre as páginas deste livro. Este, que possui um imenso universo dentro de si, mesmo não parecendo assim.

Quase inaudível, por fim, meu último sinal: risadas cheias, alegres e vitoriosas. Estas que jamais poderão ser esquecidas. Com o passar dos dias, nada mais será ouvido. O abismo que deveria ser o grande teste, nunca mais trará nada de volta para aqueles que querem ver. Para qualquer um além de mim, apenas um som do vazio profundo. Como brisa que passa por entre os galhos de uma árvore seca, em meio à vastidão de um deserto de folhas e um menino cantando e dançando no horizonte infinito. Hoje, é a minha liberdade que dormirá em silêncio.

Tudo o que está escrito aqui pode estar errado, mas não para mim.

Sou misantropo.

Sou anjo.

Sou.

Somos.

Nota Final

Depoimentos

“Por ser praticante de arte marcial chinesa, posso dizer que Anjo Misantropo ajuda a reforçar alguns valores perdidos pela sociedade que foram passados por muitos guias, mas que poucas pessoas os perceberam.”

— Marcelo Laboissiere – Fisioterapeuta

“Um livro inspirador para quem consegue ler nas entrelinhas da vida!”

— Robson Bélli – Mestre de Artes Marciais Chinesas

“O livro transmite o sentimento de repressão sofrido pelo individuo por parte da sociedade massificada, que o impele ao isolamento social. Sentimento comum para todos que tentam trilhar o seu próprio caminho.”

— Arthur Peron – Historiador

“Matheus é um grande exemplo de que jovens podem escrever com qualidade e maturidade. Sua obra engloba muitos temas, que nem sempre são facilmente percebidos, mas formam um paralelo atual do mundo que sentimos.”

— Bruno Fiorucci – Engenheiro Químico

“Anjo Misantropo dá a idéia de um ser que não se adapta ou não aceita o dinamismo, a cultura, costumes de uma sociedade, que espera algo inacessível ou mesmo utópico em uma outra realidade, que foge do senso comum. Um diferencial ante a "mesmice" da sociedade, como uma agulha em meio a uma caixa de fósforos.”

— Thiago Mitsuo Eto

“A imagem da realidade transmitida nas crônicas de Anjo Misantropo se torna visível justamente onde seus olhos não podem ver. Um paradoxo cotidiano que todos veem, mas que poucos enxergam.”

— Elison José Gracite Lusvardi – Analista de Sistemas

“O livro mostra um pouco de nossas próprias viagens internas em busca da nossa essência, daquilo que nos estrutura: o autoconhecimento. Paisagens de agonia, desespero, dor e solidão, mudando para o crescimento e renovação. Exemplifica fases humanas de conflito e reclusão, onde os sentimentos se embaralham como caos, e que tal como este se reorganizam em experiência, contentamento e felicidade. Uma verdadeira ciranda sobre a captura e o encontro do eu.”

— Maria Cecília Tozatti – Historiadora

“A sensação era a de que já tinha lido algumas daquelas linhas em algum lugar. Em leituras posteriores do livro “Anjo Misantropo”, percebi que não tinha prestado atenção a todos os detalhes dos contos e a cada leitura o livro pareceu novo de novo, encantador, e prestando mais atenção em uma palavra ou outra, sensações vieram a tona. Meu conto preferido é “Saudade”. Uma frase em especial, “O que procura e sente tanta falta é apenas o segurar de uma das mãos desse par.”, desse mesmo conto.”

— Amanda Olsen – Psicóloga

“Matheus conseguiu nos dizer o que muitos nem ousam pensar. Os contos são simples e complexos ao mesmo tempo, misturando emoção e razão, sentimentos, amor, ódio, saudade, desgosto, indiferença, demonstrando as variações de comportamento que nos acometem durante a vida.”

— Guilherme Pincelli – Engenheiro Químico

“O livro é uma profunda reflexão sobre seus pensamentos, dúvidas, relacionamentos... é incrivelmente esclarecedor. Entendi um pouco mais sobre mim mesma.”

— Caroline Winter – Engenheira Química

“Em meio de tantas situações complicadas, a simplicidade e franqueza das palavras de “Anjo Misantropo” confortam pessoas como eu. Após a leitura, viver se torna fácil e observar, divertido. O mundo se torna simples, previsível e direto. O que nos faz parar para pensar e rir da inutilidade dos seres e no caminho que percorremos com todos aqueles sentimentos óbvios, fazendo nos valorizar cada diferencial por não sermos ideais ao mundo errôneo. E não se encaixar nos faz querer fugir. Fugir para o sonho. Alguns dos capítulos são muito pessoais para mim, e se tornaram a básica descrição de meu sonho mutável, arrancando lágrimas de meus olhos e suspiros de alívio e tranqüilidade. Obrigada novamente por colocar minhas palavras em seu livro. Sinto-me honrada por poder fazer parte do inicio deste fim.”

— Guacira Leika Pastório – Veterinária

Ilustrações

Todas estas ilustrações foram criadas por Paulo Lombardi, que pode ser contactado na página de contato.

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